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9 fevereiro 26 Lisboa e Vale do Tejo

Opinião | "Depressões do Nosso Tempo"

Depressões do nosso tempo

Pedro Novo | Presidente da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo

Nos últimos dias, revisitamos uma lição antiga que persiste em ser esquecida, desta vez acompanhada por ventos nunca sentidos e, claro, depois do teste, reprovámos uma vez mais! As infraestruturas que servem o país, as nossas cidades e aldeias, não “falham” por vontade própria, nós é que as temos desenhado, construído e gerido como se o clima fosse sempre estável, previsível e ameno.

A depressão Kristin expôs uma depressão latente coletiva, que ocorre no nosso território, que não é cíclica nem variável, é permanente e teima em não ser devidamente diagnosticada e tratada. A profunda “depressão” do ordenamento do nosso território, ainda trata eventos extremos como exceções folclóricas. As previsões mudam e a vulnerabilidade mantém-se, aumentando em muitos casos e com o passar do tempo.

A comunicação social nacional deu-nos a conhecer, nos últimos dias, múltiplas ocorrências em vários pontos do país, com cortes prolongados de eletricidade, estradas interrompidas ora por abatimentos ora por queda de árvores ou postes, comunicações condicionadas, localidades a funcionar em modo de emergência e fatalidades humanas evitáveis.

Particularmente afetada, na região Centro, são ainda muitas as pessoas que vivem dias a fio, dependentes de geradores e de soluções mais ou menos improvisadas, como se a frágil robustez das nossas infraestruturas e a limitada capacidade de resolução dos nossos problemas, fosse uma inevitável fatalidade à qual o nosso triste fado não consegue escapar. Instala-se o desalento, a impotência, quando todos os sinais evidenciam a inépcia política para trabalhar um modelo de inversão desta realidade. Para muitos políticos e governantes, tal inversão parece não passar apenas de um luxo, ignorando que esta é a base mínima de uma sociedade moderna. Repetem-se depois todos os lugares-comuns que conhecemos e, sobre escombros e cadáveres, chegam os apelos, as ajudas, e as invariáveis promessas políticas imediatistas e de vistas curtas.

Ao ritual das listas de estragos, perdas e putativos custos com encargos na reconstrução e perdas de toda a espécie, somam-se as fotografias das árvores caídas, dos carros destruídos, e os inevitáveis comentadores profissionais, que, com a sua mundividência, nos esclarecem sobre a intensidade invulgar do vento e o nosso mórbido gosto pela desgraça soltando um - “foi muito azar!”. Azar, é tropeçar num degrau, cair e daí resultar um qualquer problema. Aquilo a que assistimos não foi azar, foi um sistema inteiro a colapsar em cascata, falta de energia, rede viária e ferroviária condicionada e cortada, sem acesso a telecomunicações e serviços básicos, a isso chamo de vulnerabilidade sistémica e estrutural. Como pode um país posicionar-se como moderno e evoluído, e ter a sua principal linha de caminhos de ferros cortada mais de uma semana?

Se quisermos ser concretos e rigorosos, não foi “o vento” que desligou a região centro: foi a combinação previsível de redes aéreas expostas, vegetação sem gestão junto a corredores críticos, postes em solos saturados, valetas e linhas de água sem manutenção, redes hidráulicas subdimensionadas, taludes que cedem por deficiente contenção e drenagem, vias locais sem alternativa quando cai uma árvore ou quando uma ribeira transborda. Quando falha a energia, falham os sistemas de bombagem e falha a rede de distribuição de água; quando falham as comunicações, falha a coordenação e a resposta; quando uma estrada municipal fica cortada por queda de árvores, aluimentos ou inundações rápidas, a economia local pára e o socorro demora.

A comunicação social internacional tem vindo a relatar, um pouco por toda a Europa, o mesmo filme, mas com sotaques diferentes: estradas destruídas por inundações, redes deformadas por calor extremo, infraestruturas sobrecarregadas por eventos mais frequentes e intensos, com um denominador comum, manutenção insuficiente, adaptação adiada, decisões territoriais que ignoram risco. O problema não é “um inverno rigoroso” ou “de uma região”, é um problema de modelo, de cultura do rigor e de visão.

Não me interessa acrescentar lamúrias às muitas lamúrias que nos entram pela casa adentro. Interessa-me, com ironia confessa, ser propositivo. Comecemos pelo básico que nunca é tratado como básico, ou seja, fundamental: assumir energia, comunicações, água e acessos como linhas de vida e planeá-las como tal, com redundância real e continuidade de serviço para hospitais, bombeiros, centros de saúde e sistemas de abastecimento.

Isso exige mapas públicos de criticidade e pontos de falha, segmentação da rede elétrica para evitar apagões em cadeia, enterramento seletivo e proteção reforçada nos troços mais críticos da rede elétrica, micro-redes e energia de emergência nos equipamentos essenciais, gestão rigorosa da vegetação junto a linhas e vias, reforço de drenagem e redimensionamento de caudais das redes hidráulicas, criação de bacias de retenção e soluções de infiltração e, sobretudo, instrumentos territoriais revistos com cartografia de risco atualizada para travar a ocupação teimosa de leitos de cheia, encostas instáveis e zonas de erosão. E nas cidades, através dos Planos Diretores Municipais de terceira geração reforçar a permeabilização, e através de outros planos, projetar ruas que efetivamente drenem e espaços públicos que retenham água sem destruir tudo à sua volta. Planeamento responsável é fundamental e trabalhoso.

As próximas “depressões” irão chegar. Se nada fizermos de estratégico e se no fundamental nada mudar, o que será verdadeiramente deprimente, será chegarmos ao próximo evento com o mesmo território frágil, desregulado e sem estratégia, e com a mesma frase pronta para o noticiário, “ninguém esperava algo tão devastador”.

É tempo de atirar para o lixo o guião político das visitas-relâmpago, abraços de lente às vítimas com as mãos vazias de soluções. Rejeitar veementemente a autopromoção e o narcisismo político que nos vai chegando através de vídeos nas redes sociais, de responsáveis políticos que, por essa via, simulam tarefa ou trabalho como justificação da sua ausência no terreno. É teatro político que não repara estradas, não reforça redes, não limpa linhas de água, não cria redundância, não adapta cidades. O tempo da gestão por imagem tem de terminar, para dar lugar ao tempo das decisões que ficam quando as câmaras saem de cena.

Fonte: Jornal Construir
 
 

 

 

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