Início > Notícias > Secção Regional Norte abre ciclo "Habitar" com debate sobre Reabilitação como Estratégia Habitacional

29 abril 26 Norte

Secção Regional Norte abre ciclo "Habitar" com debate sobre Reabilitação como Estratégia Habitacional

(c) Egídio Santos

A primeira mesa do ciclo Habitar. Entre o Projeto e a Vida reuniu arquitetos, engenheiros e promotores imobiliários em torno de uma questão central: reabilitar para quem — e a que custo social?
No passado dia 29 de abril, a sede da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos acolheu a primeira sessão do ciclo de mesas-redondas "Habitar. Entre o Projeto e a Vida", sob o tema Reabilitação como Estratégia Habitacional. Moderada pelo Arq. Bruno Marques, Presidente do Conselho Diretivo Regional Norte, a sessão reuniu o Eng. Hugo Beirão, Presidente do Conselho de Administração da Porto Vivo SRU, o Eng. Bento Aires, Presidente do Conselho Diretivo da Ordem dos Engenheiros – Região Norte, o Arq. João Rapagão e o Dr. Francisco Paiva Ribeiro, Presidente do Conselho de Administração da Invenio Engenharia, num debate que cruzou política urbana, engenharia, projeto e promoção imobiliária.

Mais sobre o Ciclo de Mesas-redondas Habitar. entre o Projeto e a Vida em atualização aqui.

A sessão completa está disponível no Youtube da Secção Regional Norte, aqui.

Esta sessão integra o programa paralelo da exposição Wide Angle View — A Arquitetura como Espaço Social na série Manplan 1969–70, organizada pela Ordem dos Arquitectos Secção Regional Norte em colaboração com o Royal Institute of British Architects (RIBA), a Cityscopio Associação Cultural e o CENP/FAUP, com o apoio da Câmara Municipal do Porto, Ageas Seguros e Tintas CIN.

Fotografias de Egídio Santos.

A questão de partida foi direta: a reabilitação em Portugal é hoje sobretudo uma política pública orientada para o interesse coletivo, ou uma dinâmica predominantemente conduzida pelo mercado? As respostas, embora distintas na perspetiva, revelaram um diagnóstico amplamente partilhado.

O Eng. Bento Aires abriu o debate traçando um paralelo entre o sucesso das políticas de reabilitação urbana das décadas anteriores e a atual crise habitacional, argumentando que Portugal já demonstrou capacidade de simplificar, desburocratizar e dinamizar o património edificado nos centros históricos — e que esse caminho precisa de ser retomado. Criticou a complexidade e morosidade dos processos de licenciamento atuais, defendendo uma reforma assente na responsabilização dos técnicos. Referiu ainda a ausência de uma plataforma eletrónica unificada de procedimentos urbanísticos — que deveria estar em vigor desde janeiro de 2025 — como sintoma de um Estado que continua a travar aquilo que deveria facilitar. No Parlamento Europeu, disse, defendeu mesmo a suspensão das metas da Diretiva Europeia de Eficiência Energética nos edifícios, por considerar que o seu impacto nos custos de construção compromete a viabilidade da habitação acessível.

O Eng. Hugo Beirão situou a reabilitação num quadro necessariamente misto, onde mercado e política pública precisam de operar em equilíbrio. Recordou a transformação da cidade do Porto nas últimas duas décadas como um exemplo de sucesso que não pode ser ignorado, e sublinhou que a Porto Vivo tem apostado numa visão de regeneração urbana — não apenas de edifício a edifício, mas à escala do quarteirão e da cidade. Detalhou os instrumentos em curso para dar resposta à classe média e média-baixa, incluindo o projeto em Campanhã, desenvolvido em parceria público-privada, com rendas acessíveis entre os 530 e os 950 euros e apoio municipal às famílias com maior taxa de esforço. Alertou, porém, para a necessidade de pensar a habitação à escala metropolitana: o Porto, com 13% de habitação pública — bem acima da média nacional de 3% —, não pode ser o único a dar resposta.

O Arq. João Rapagão, antigo administrador da Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto, trouxe uma perspetiva vincadamente social ao debate. Recordou um tempo em que a missão era comprar imóveis, realojar temporariamente os moradores para executar obras e devolvê-los à mesma casa — uma política que considera ter deixado de existir sem substituto à altura. Visitando recentemente o centro histórico do Porto pela primeira vez em muito tempo, deparou-se com ruas preenchidas de alojamento local e esvaziadas de moradores, um cenário que questionou em voz alta. Para Rapagão, as pessoas são o verdadeiro património da cidade, e a reabilitação só cumpre o seu propósito quando garante o direito ao lugar — conceito que foi buscar a Fernando Távora. Defendeu também que as soluções de arquitetura em reabilitação devem ser pensadas para a reversibilidade: um espaço de alojamento local deve poder transformar-se facilmente em habitação para um jovem casal ou para uma pessoa só, sem nova intervenção de raiz.

O Dr. Francisco Paiva Ribeiro foi direto quanto à lógica que orienta o investimento privado: o promotor desenvolve o produto em função do mercado e do perfil do consumidor final. Se o Estado pretende habitação acessível, tem de assumir esse papel de forma estruturada e estável — e não tem feito isso, independentemente do governo em funções. Destacou o peso fiscal que recai sobre a produção de habitação — num estudo citado, 46,7% do preço de uma habitação nova reverte para a Fazenda Pública —, e criticou a alienação sistemática de património público que poderia ter sido convertido em habitação acessível. Sobre o IVA a 6%, disse não querer saber se é 6% ou 23%: o que o setor exige é estabilidade legislativa. Relatou o caso da sua própria empresa, confrontada com uma liquidação de 25 milhões de euros em IVA referente a anos de faturação aceite sem reservas pelas finanças, como exemplo do clima de imprevisibilidade que inviabiliza o planeamento de longo prazo.

O debate percorreu ainda temas como a falta de mão de obra qualificada — resultado de mais de uma década em que o setor foi maltratado e os seus profissionais empurrados para o exterior —, a oportunidade de atrair trabalhadores qualificados provenientes de países da América Latina, e os limites da industrialização enquanto solução para a reabilitação, que pela sua natureza intensiva e pontual dificilmente é compatível com processos industriais de larga escala. A intervenção da plateia, que incluiu a Vice-Presidente da Ordem dos Engenheiros Técnicos, Cristina Cardoso, recordou experiências bem-sucedidas de habitação social dos anos 90 e questionou o paradoxo de um país que construiu instrumentos eficazes — e os deixou cair no esquecimento.

O moderador encerrou os trabalhos com uma nota de convergência: apesar das perspetivas distintas, os intervenientes partilharam um mesmo diagnóstico. A reabilitação é um instrumento essencial — mas continuará a falhar enquanto não houver estabilidade legislativa, simplificação dos processos, política pública de habitação consequente e uma visão integrada à escala da cidade e da área metropolitana.

Voltar Atrás