Terra Crua
A terra crua é um dos materiais de construção mais antigos e utilizados no mundo, estando presente, sob diversas formas e técnicas, em diferentes locais e contextos, ao longo de quase todo o mundo e de toda a história. As propriedades mecânicas da terra permitiram, em diversos locais do mundo e ao longo dos tempos, construir edifícios — do chão à cobertura — apenas com recurso a este material, garantindo condições de conforto, salubridade, segurança e durabilidade.
Disponível e abundante, muitas vezes no próprio local da construção, a terra associa um bom desempenho mecânico à possibilidade de um processo construtivo sustentável, em toda as dimensões ambiental, social, económica e cultural deste conceito.
Dependendo dos processos e métodos escolhidos para realizar uma construção em terra crua, o ciclo de vida desta pode incluir particularidades de grande relevância, tais como: dispensa de fase de transformação e transporte da matéria-prima; redução ou dispensa de recurso a materiais industriais complementares com impacto nocivo (estruturas portantes, isolamentos, rebocos e tintas de origem química, etc.); ausência de resíduos de obra; regulação de conforto interior com dispensa parcial ou total de maquinaria de controlo higrométrico; possibilidade de manutenção continuada e elevada durabilidade; baixa emissão de carbono; reduzido consumo energético durante a construção e durante a utilização e vida do edifício; reutilização da matéria (construção de novo edifício com a terra usada em edifícios demolidos); diluição total em fase de fim de ciclo (a terra de um edifício pode regressar à natureza sem quaisquer impactos).
A terra é composta por grãos de dimensões, características e propriedades diversas, desde as pedras (de maior dimensão), passando pelas gravilhas, areias, siltes, até às argilas (de menor dimensão). A presença e proporção de cada um destes componentes numa determinada terra vai definir as suas propriedades, e esse será um dos critérios de ponderação na escolha da forma como ela vai ser utilizada — técnica construtiva e processo de execução. Na funcionalidade da sua composição, a terra assemelha-se a um betão — tendo areia, gravilhas e pedras como inertes, e argilas como ligante — com a diferença de que a presa criada pelo ligante (argila) é reversível e reciclável, enquanto que, num betão de cimento, a presa criada por este ligante é definitiva.
Em qualquer das diversas técnicas construtivas existentes, utiliza-se terra mineral, isto é, proveniente do horizonte B — abaixo da camada superficial de terra orgânica e antes da camada de rocha. Quando disponível em qualidade e quantidade adequadas, a terra utilizada em obra pode ser a do próprio terreno onde será erigida a construção, incluindo a proveniente da abertura de caboucos para fundações, de caves ou pisos enterrados, ou de piscinas ou outras quaisquer escavações ou modelações de terreno.
Estão identificadas diversas técnicas e formas de utilização da terra crua na construção, mas em Portugal existem sobretudo três técnicas ancestrais: a taipa — terra compactada — presente e ainda praticada no Alentejo, Algarve e Ribatejo; o adobe — tijolos moldados e secos ao sol — presente (mas quase sem expressão atualmente) sobretudo no Ribatejo e Beira Litoral, mas também no Alentejo e Algarve em paredes interiores de edifícios em taipa; o tabique — preenchimento e revestimento de estruturas em fasquiado ou tabuado de madeira — presente (de forma residual e sem continuidade na atualidade) sobretudo na Beira Alta e Trás-os-Montes, e em algumas zonas do Ribatejo. Em todos estes casos, podem ser encontrados exemplos de utilização de terra crua na produção de rebocos.
Existem igualmente alguns casos de edifícios construídos com uma técnica recente — os blocos de terra comprimida (BTC) — sem localização específica e de forma ainda mais ou menos experimental; e casos de construções em terra-palha — paredes não-portantes construídas por prensagem (em cofragens) de palha solta embebida numa calda de argila.
Entre os vários critérios que relacionam ou distinguem as diversas técnicas construtivas em terra crua, está o facto de umas (taipa, BTC) usarem a ‘compactação’ da terra como forma de produzir elementos construtivos, enquanto outras (adobe, terra-palha, rebocos) assentam na propriedade de ‘colagem’ das argilas. Estas últimas podem incluir, no seu ciclo de produção, a adição de fibras — sobretudo palha — que constituem uma espécie de ‘armadura’ incorporada que reduz a possibilidade de fissuração dos elementos construídos e, como objetivo central ou por mais-valia decorrente, dotam esses elementos construtivos de um melhor desempenho térmico (isolamento).
Os elementos construtivos em terra crua são incombustíveis — incluindo no caso em que há uso de palha ou outras fibras vegetais, já que estas estão totalmente envolvidas pela terra — e têm um excelente desempenho térmico, acústico e higrométrico, contribuindo para o conforto no interior dos edifícios. No entanto, a terra é sensível à água, pelo que a arquitetura deve prever boas soluções construtivas para proteção de elementos como a base e os topos das paredes em terra. Porém, esta vulnerabilidade à água não é extensível à humidade (sob forma de vapor), cuja presença na parede é inócua e variável, em função da humidade relativa ambiente e outros fatores, e contribui para o controlo higrotérmico e, assim, para o conforto interior. Por estas e outras características e propriedades, a terra crua é um material de grande pertinência e compatibilidade com os princípios da arquitetura bioclimática.
Conforme as diferentes técnicas construtivas em terra, as paredes podem ou não ter de ser rebocadas, quer no interior quer no exterior. Para zonas protegidas de agressões (sobretudo em paramentos interiores), os rebocos podem ser de terra, enquanto que no exterior se costuma usar rebocos de cal, um material muito compatível com a respirabilidade que as paredes em terra exigem. Em todo o caso, deve evitar-se rebocos ou revestimentos que impeçam essa respirabilidade da parede, como sejam rebocos em cimento.
Disponível e abundante, muitas vezes no próprio local da construção, a terra associa um bom desempenho mecânico à possibilidade de um processo construtivo sustentável.
A terra crua oferece uma grande variedade de possibilidades de utilização, no âmbito da construção. Numa situação ideal, utiliza-se a terra existente no local da obra, por forma a evitar qualquer transporte. Isso requer uma análise preliminar da terra disponível, para averiguar a sua adequabilidade.
Crivagem de terra para calibrá-la em função da técnica construtiva a utilizar.
Produção de adobes com adição de fibras.
Execução de taipa — compactação manual de terra humedecida, com recurso a cofragem própria (taipais), para construção de paredes.
As paredes de tabique são outra possível utilização de terra crua enquanto material de construção. Depois de finalizada a execução da estrutura de madeira, a parede é preenchida com terra crua humedecida e misturada com fibras para potenciar a cura, no processo de secagem da terra.
Verificação de preenchimento e alinhamento de uma parede em tabique.
Parede em taipa com elementos estruturais (lintel) em betão armado e argamassa de regularização no topo.
Parede em taipa, com pormenor da entrega do lintel e de passagem de tubagem de rede.
Execução das camadas superiores de uma parede em taipa.