8 junho 26 Norte
Mesa-redonda sobre o papel da fotografia encerra programa paralelo da Exposição 'Wide Angle View'
A 29 de maio, teve lugar a última conversa pública incluída no programa paralelo da exposição Wide-Angle View: A Arquitetura como Espaço Social na série Manplan 1969–70 — sob o título "Ampliar o Campo de Visão: ", um encontro que abriu espaço ao pensamento crítico e à troca de ideias em torno dos vínculos entre arquitetura, fotografia, vida urbana e espaço coletivo.
O ponto de partida foi o cruzamento entre a exposição Wide-Angle View e o projeto de investigação "50 anos do 25 de Abril: as geografias das dinâmicas sociais, económicas e políticas", promovido pelo Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT).
Após abertura institucional a cargo da Arqª Adriana Floret, a introdução por parte dos moderadores Pedro Leão e Maria Neto evocaram a pertinência duradoura do legado da série Manplan, insistindo na necessidade de devolver a arquitetura às vivências concretas das pessoas e de encarar a cidade como arena de vida social, política e democrática. O olhar recaiu igualmente sobre a fotografia como ferramenta de análise crítica, com capacidade para evidenciar as ligações entre o território, as condições de habitação, as assimetrias sociais e o exercício da cidadania.
O painel reuniu Teresa Sá Marques, Olívia Marques da Silva, Attilio Fiumarella e Adriana Floret, cada um trazendo uma lente interdisciplinar para a discussão. Ancorada na geografia e no planeamento territorial, Teresa Sá Marques traçou um retrato dos intensos processos de mudança social e espacial que Portugal atravessou nas últimas décadas, alertando para as disparidades que ainda marcam o acesso à habitação, aos equipamentos e às possibilidades oferecidas pela vida urbana.
Attilio Fiumarella explorou a aptidão da fotografia para trazer à superfície camadas da cidade contemporânea que escapam ao olhar comum, propondo a imagem como veículo de interrogação sobre os modos como os lugares são habitados, disputados e narrados. Olívia Marques da Silva, por seu turno, defendeu a fotografia documental como forma de conhecimento e de elaboração de relatos sobre o tecido social, salientando o seu poder para ampliar a escuta das experiências urbanas e dar visibilidade a fenómenos que raramente chegam aos discursos predominantes. Adriana Floret, apoiando-se no seu percurso ligado à regeneração urbana e à salvaguarda do património, debruçou-se sobre as tensões atuais em torno do habitar e da reconfiguração das cidades, apelando à preservação da dimensão humana da arquitetura e a intervenções que articulem identidade, sustentabilidade e bem-estar.
Durante a sessão, confrontaram-se experiências, saberes e perspetivas distintos sobre a cidade e os seus espaços de uso coletivo, gerando um intercâmbio especialmente fecundo entre os dois projetos que enquadraram o encontro. As diversas vozes convergiram na defesa de uma cidade pensada a partir das pessoas, na afirmação do espaço público como território de convivência e participação cívica, e na urgência de desenvolver linguagens de representação mais atentas aos desafios sociais e territoriais que o presente coloca.
A riqueza das contribuições, a pluralidade de olhares e o empenho de todos os presentes fizeram desta conversa pública um momento de particular densidade e estímulo intelectual, confirmando a vitalidade das questões levantadas pela série Manplan e a relevância de aproximar arquitetura, fotografia, investigação e pensamento social na abordagem aos desafios que as cidades enfrentam hoje.